|
Apresentamos a seguir o relato de casos reais de
violência e criminalidade infanto-juvenil. Para preservação da identidade
das crianças e adolescentes e suas famílias, todas as indicações
pessoais são fictícias.
 |
Sem arrependimento |
Era um adolescente franzino, de olhos apagados
e fala quase sigilosa. Tinha um vício bizarro e uma personalidade
implacável: bebia álcool puro e não conhecia arrependimento. Aos
doze anos de idade já possuía uma folha de antecedentes criminais
métrica. É verdade que a maioria dos casos era por uso de droga
e pequenas arruaças de rua. Certamente o que lhe garantiu a vida
até a primeira adolescência foi o fato de não haver dirigido sua
atenção ao patrimônio alheio.
Mas aos treze anos houve uma súbita mudança. A
violência dirigida contra si próprio tomou um rumo perigoso: furtos
em comércio, gangue, ameaças... Daí para o primeiro homicídio foi
um pulo; com ele, veio uma raiva incontrolável contra quem se colocasse
no seu caminho. Os três primeiros homicídios foram praticados contra
rivais de outras gangues da periferia. Isso não lhe deu fama. O
horror se iniciou com os primeiros estupros contra moças da classe
média, filhas de autoridades. Passado o horror da experiência, as
vítimas foram lançadas em uma situação de terror inevitável: a violência
sexual poderia lhes roubar a vida, pois o criminoso fora contaminado
meses antes pelo vírus da aids.
Seis homicídios mais tarde, já prestes a completar
18 anos de idade, o adolescente-monstro já passara mais de três
anos encarcerado. Na condição de adulto, não tardou a praticar seu
primeiro crime violento, o que lhe rendeu uma pena de prisão exemplar
em penitenciária.
Sua carreira de horrores ainda não culminara. Um
benefício processual lhe permitiu a liberdade que faltava para praticar
o ato insano de matar dois jovens sem piedade, para roubar o carro
em que estavam. Assustado, fugiu sem nada subtrair. Preso, e ao
saber que no banco de trás encontrava-se o filho recém-nascido do
casal, lamentou não tê-lo visto, porque se visse, também o mataria.
Este relato leva a uma conclusão quase unânime:
é um caso sem solução (para muitos, a solução seria a morte do criminoso).
Por ter conhecido o caso de perto, na condição
de Promotor de Justiça, acusando o então adolescente pela prática
de três homicídios, posso pedir ao leitor que faça um exercício
mental inusitado: vamos paralisar nossa atenção (e indignação) sobre
o caso e retornar a alguns anos atrás.
Antes mesmo de nascer ele já fora vítima de violência.
Sua mãe, prostituta e alcoólatra, só percebeu que estava grávida
no quarto mês de gestação. As tentativas de aborto não deram resultado;
já era tarde demais. O menino nasceu em um hospital público, e os
sinais de desequilíbrio psicológico e físico da mãe não chamaram
a atenção dos profissionais da saúde que a atenderam. Nova visita
só ocorreria três anos depois.
“Um acidente em casa” foi a justificativa apresentada
pela mãe para o traumatismo craniano da criança. Novamente, os profissionais
do hospital nada perguntaram, nada encaminharam. A próxima visita
aconteceu apenas cinco anos mais tarde. Mas isso nós veremos depois.
A juventude da mãe se consumiu em curto espaço
de tempo. O desgaste da prostituição, algumas lesões corporais e
dois outros partos custaram-lhe não apenas a profissão mas a própria
sanidade mental. A alienação da realidade foi logo percebida pelo
filho, que com sete anos de idade passou a viver nas ruas. Franzino
e falante, logo fez amizade com outros meninos, o que até lhe trouxe
algum conforto emocional. Mas a rua é infinita em nomes e rostos;
um desconhecido tomou o garoto à força e o violentou com requintes
de crueldade: não satisfeito com a violência sexual, introduziu
um pedaço de madeira no ânus da criança e o dilacerou.
Foi encontrado perambulando pelas ruas e chorando
de dor. As circunstâncias não são bem conhecidas, mas pelo menos
dessa vez os médicos, por não terem opção, encaminharam o caso à
polícia.
Com doze anos de idade, e morador de rua há cinco,
o adolescente já era contumaz usuário de todo tipo de drogas. Estava
preparado o roteiro de uma tragédia social.

|